Um pouco de poesia para os dias
Novembro 28, 2009
Canção Passarinho
Me sinto um “tadinho”
Quando sozinho vejo voar um livre passarinho
Um Voa-leve Voa-solto
Voa-mole
Voa borrando minha tristeza
E dá-me alguns segundos de alegria.
Engole a tarde passarinho
Ri dá vida e bate-asas
Passarinho passarinho passarinho!
Em seu ninho quentinho
Dormem quietas as esperanças que um dia
Depositei nesses homenzinhos.
Segue
Novembro 17, 2009
Iniciação ao Canto para Chàngô
Chàngô era médico, curou seu Pai, Obbatalà.
Mas isso é uma longa história, prefiro contar pessoalmente…
Chàngô, Justiça; Elleguà, Destino; Obbatalà, Babá.

Trovão, Fogo, Justiça
-As duas somalianas que moram aqui em casa olharam para mim em silêncio naquele dia, sorrindo baixinho. Era fim de tarde. Lá no canto, a velha cubana fumava seu charuto de um palmo, baforando todo ar; era tão tranquila e usava aquelas cores tão fortes. Sentei.
Então, veio vindo a mulher abissínia devagar. Café preto no bule, trazia ela. Sentou de fronte, serviu, calou. Mulher negra, alta e de coxas sumamente grossas.
-Beba.
E bebi. Café preto no ponto.
-O menino João vai usar de seu machado, vai chamar o trovão e vai queimar o fogo. Menino danado, mas preciso.
Fechou os olhos, a noite caiu, a velha cubana riu. Já caminhava a escuridão com cheiro de café. E eu, imediatamente, chamei minha namorada lua para deitar em meu colo. Sorri, por fim.
(“Diálogos de Paz em tempos de Guerra”, mencionou Deleuze na esteira do tempo)
Um parêntese, antes de continuar
Novembro 7, 2009
Já nelas (Madrugada do dia 06 para o dia 07.)
I
Tão somente trata-se de contemplar as janelas.
As portas estão todas lá, e nos dizem sem muita demora aquilo que nos espera para além de sua passagem.
As portas são as primeiras e mais visíveis entradas; o esperado que cansado de tanto esperar, já se mostra. E mostra-nos, sem culpa e meia-culpa, a paisagem construída e óbvia do que seja uma sala de visitas.
II
Nas salas de visita, os visitantes são sempre aguardados de alguma maneira. Os visitantes visitam, e uma visita há de sempre ser esperada, por mais remota que seja a possibilidade d´ela aparecer.
Porque as visitas apenas adentram aos recintos pelas portas; porque as visitas tocam as cigarras, batem palmas, assoviam ou gritam para anunciar sua presença. O que poderia ser surpreendente desaparece.
O anúncio anterior de uma chegada, já elimina naturalmente qualquer possibilidade de ela existir. As portas representam a morte das chegadas, o fim abrupto de todo o aparecimento e do mistério saboroso que pode envolver todo conhecimento imprevisto. Não se fala “apareceu pela porta”, mas sim “entrou pela porta”. As possibilidades se fecham com o lento escancarar-se de todas as portas. Damos de cara não com alguma coisa que nunca foi vista pelos nossos olhos, mas sim com uma esperada sala de visitas.
III
Sofás e cadeiras muito silenciosas e desconfiadas em seu silêncio lá estão. Todos os móveis nos olham e fingem não nos ver. Os móveis de uma sala de visita, que tem sempre uma porta para alguma entrada prevista, são sempre arredios e indiferentes.
As portas dão sempre para “integras” salas de visitas, e mesmo assim, insistimos sempre em procurá-las para se entrar em algum lugar.
IV
Mas há sempre alguém a caminhar pela rua, desapercebido do trânsito dos carros, das brigas dos irmãos e dos sons das televisões de alguma coisa. Nunca este soube o que viria a ser uma porta. Toda vez que sente que deve entrar em algum lugar, olha com certa suavidade para o céu, e procura por uma janela.
V
As janelas são diferentes. Elas não escancaram uma boca, mas insinuam um sorriso; não gritam para serem vistas, mas sopram para serem sentidas.
O sopro de uma janela revela um cheiro oculto, uma música desconhecida, uma melodia que afaga, um travesseiro com muitas lágrimas soltas ou um caderno com muitas lágrimas presas. Essa misteriosa maneira de se entrar nos lugares, jamais dará para uma concreta sala de visitas, porque nunca se espera que uma visita entre pela janela. Uma janela espera intrusos, aquelas pessoas que carregam o dom dos mais curiosos e saltam para dentro. A porta pede-nos apenas alguns passos, mas a janela exige-nos sem remorso um pequeno salto.
VI
As janelas, seja em que parte do mundo elas se encontrem, darão sempre para o saboroso e aconchegante mistério que todo quarto esconde; todos os suspiros encontram-se em um quarto. Não conheço janela que não vá dar em um quarto. Os quartos não são como as valsas das salas de visitas. Eles mesmos são uma dança sem nome; um lugar sem endereço. Existe paixão nas janelas; um silêncio que chama muito a atenção. Nunca vemos o que está por trás de uma janela e de sua eterna brincadeira com o mistério; sempre caminhamos por um delicado e cativante caminho de suposições. As janelas brincam com nossos significados. Se entrarmos por uma janela em qualquer sala de visita, ela deixará de ser uma sala de visita e será um límpido e desconhecido quarto; lugar de falas baixas e toques silenciosos…
Enfim.
Quanto a mim…
A Verdade de um Sambinha
Outubro 31, 2009
Así, Hasta Buena Vista (Miramar)
Tsc…
Sinto por ti, por nós, perdidos na distância do tempo em uma forma de grito preso. Que venham os encontros fortuitos e gratuitos: tudo voltará como sumo para ti, algum dia.
Meio enjoado. Mas isto vem da descentralização interna. Bah!
Se quero fico se quero vou. Nada de “mujeres” baratas roubando minha energia e tempo. Dou uma sacudida com os ombros e deixo a poeira cair ao largo da rua.
Estamos na França do Séc. XVII, e as feiras livres inundam as ruas estreitas e apinhadas de almas com as sobras de frutas, legumes, carnes, peixes e gordura de baleia vinda dos baleeiros do porto de Nantucket. Tchá! Isto é uma crônica para aquela mulher de saia justa!
Olhem o homem: estando sentado em sua mesa circular com mais uma cadeira vazia ao seu lado; fuma um cachimbo envernizado, repleto de tabaco das índias orientais. Uma grande caneca de cerveja repousa sobre a mesa a espera de mais um gole.
Esta mesa fica na calçada; este bar, escondido em uma das margens do Danúbio, Budapeste, Hungria. Mas as pessoas de lá são todas parisienses. Cerveja alemã.
Há uma cadeira vazia, oferecida. Ou sente-se ou vá embora, pois este é um homem selvagem, de poucas palavras. É contemplativo, mas indócil. Pode sorrir abertamente, mas também calar e calar.
Seus olhos repousam no Egito, e nas grandes caravanas expedicionárias para dentro do Saara. Rhá!
Perguntem seu nome e lhe darão um beijo e uma mordida:
-Buena Vista Miramar.
Sempre com um bom cubano no bolso para os dias quentes e abafados…
Inicialmente, uma singela homenagem
Outubro 21, 2009
Boa !
(Este é um espaço, sem dúvida.)
Ao mestre, Sr. Carlos. O meu muito obrigado. Ensinaste-me coisas não ditas. Caminhe agora no eterno com a ternura que te cabe, sei que a possui.
Voltarei a ti neste espaço, como se volta a uma boa dose de cachaça: aos poucos e com calma.
-Certa vez adiantei, dei um passo. Encotrei-o na varanda do Ap. 104 do Residencial Wiblendon pela primeira vez. Cheirava a suor, rua e cachaça. Depois nos encontramos tantas outras vezes em tantas outras trocas; jazz, choro, literatura, poesia, amores, dúvidas (minhas), filmes, atores, atrizes, silêncio, futebol. E me apresentou livros, vários.
Era varanda a noite; como depois muitas outras foram. Me apresentou-o Sr. um amigo e, ali, naquela ocasião, falávamos, os três, de política, trabalho, massa, ditaduras pelo mundo, psicanálise, piadas de bom coração e trocas bem abertas.
Foi feito um macarrão com soja para o homem e, de imediato, ele tirou sua “colonial” do bolso, com limão e uma faca. Botou um pouco da cachaça num copo de plástico, cortou o limão ao meio e pingou algumas gotas no líquido: “subterrâneo, contínuo e dirigido” – resmungou para mim enquanto tragava com classe sua dose. Trajava vinho.
Referia-se ele a como deve ser um trabalho; jamais esquecerei. Disto e do depois, todo o depois…
Vai com Deus Carlos, Professor, Mestre, Homem. Apontaste uma trilha pelas letras: a seguirei.




