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outubro 21, 2010
Trabalho de Transcrição nº2 (Lágrima)
*Falas de Mestre Pastinha no cd “Capoeira Pastinha Eternamente”
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“Eu me chamo Vicente Ferreira Pastinha, eu nasci pra capoeira! Só deixo a capoeira quando eu morrer… Eu amo o jogo da capoeira e não há outra coisa melhor na minha vida, no resto da minha vida que seja a capoeira!
…Hoje eu estou com 79… Óia, minha vida é uma vida muito atrapalhada pra eu contar, mas tem centenas de pessoa, milhares de pessoas que me conhece, que já me acompanharam de infância e que vem me acompanhando poderá dizer alguma coisa. Todos eles que quiser dizer alguma coisa sobre minha biografia, pode dizer quarquer coisa, eu aceito toda e quarquer. Agora tem uma coisa, num fui bobo! Na roda de capoeira! Eu num fui bobo…
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Na mandinga num fui bobo não, viu? Agora pra eu dizer, pra eu contar assim, eu num vou contar nada porque… Se eu contar fica uma coisa muito longa… que parece que eu estou no céu.
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Muitas disorde que o capoeirista fazia não era propriamente por ele, era também provocado. Porque se estava numa vadiação, em um grupo com um berimbau, num é, na mão, eles passava, entendia de querer tomar, pra quebrar… Aí inflamava, num é? O íntimo do capoeirista não queria perder seu instrumento, num é? Então o que nóis tinha que brigar…
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Um instrumento, por exemplo, como a, o Berimbau, né somente intrumento –agora vou aproveitar e dizer alguma coisa… – né somente instrumento. Muita gente tem que é o instrumento Berimbau Berimbau Berimbau… Berimbau é música, é instrumento.
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Berimbau é música, é instrumento, música. Támbem é instrumento ofensivo que… ele na ocasião de alegria é um instrumento, nós usamos como instrumento e na hora da dor ele deixa de ser instrumento pra ser uma foice de mão…
Eu vou contar…
No meu tempo eu usava também uma ‘foicizinha’ no tamanho de uma chave. A foice vinha com um corte e um anel pra encaixar no cabo. Mas eu como era muito bondoso, era muito amoroso, né, pra´queles que quisesse me ofender, eu então mandava abrir outro corte nas costa. Se eu pudesse eu mandava abrir outro mais! Num é, mas num podia… mandava abrir outro corte, ficava dois corte.
E na hora desmanchava o berimbau encaixava a foice e eu ia manejar, num é.
Porque o capoeirista tanto ginga, como pula, ‘ropia’, ‘ropia’, e como também ele ‘szanga’ e como defende-se também.
O capoeirista tem a mentalidade pra tudo. E quanto mais o capoeirista ‘carmo’ melhor para o capoeirista.
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(…mais vontade.) (…)
O capoeirista num deve ser afobado! O capoeirista num deve provocar! O capoeirista não deve fazer certas coisas! No meu tempo, eu era capoeirista. Também tinha capoeirista que andava torto, mas torto, como a natureza não fez ele! Porque ele pegava um lenço, botava no pescoço, um lenço grande, uma calça boca, que dava trinta centímetros de boca, chinelo de xadrin, né, chapéu jogado do lado,aí ele saía todo torto, ou do lado esquerdo, ou do lado direito, conforme ele tivesse a, o jeito né, se ajeitava nisso…
E andava pelo meio da rua, com aquele gingado né… Só a calça parecia, a boca da calça parecia uma saia! Mais uma saia do que calça. Capoeirista tinha tudo isso naquela época, né? Capoeirista se prestava naquela época pra muita coisa. E eu admiro hoje se o capoeirista se prestar pra certas coisa!
*
Eu sou um dos exemplo do passado! Aqui tem muitos veteranos! Velho mesmo! Capoeirista veterano, mais idoso do que eu! Menino da menina dos meus olhos, capoeirista!
Eu tinha aqui um aluno por nome ‘Aberrê’, esse foi meu aluno e era afilhado do mesmo padrinho meu… Morava na ladeira do São Francisco, e eu morava na ladeira do Muntun. Eu levava, ele ia lá pra casa pra eu ensinar ele a jogar capoeira, quando eu dei baixa…
*
Tive um amigo que me chamo pra eu tomar conta de uma casa de jogo. Eu fui ‘tomá’ conta dessa casa de jogo. Tinha necessidade de ir ao chefe de polícia pra tomar uma licença, pra puder abrir a casa, eu fui. Me levaram lá o dotô Alvaro ‘Cobra’. Quando eu entrei, estou na casa do dotô Alvaro ‘Cobra’…
-Doutor, é este o rapaz que vai tomá conta da casa do jogo…
Aí ele olhou assim pra mim, me olhou todo de cima a baixo, com os desenhos, aí foi e disse:
-Esse, esse garoto que vai tomar conta da casa de jogo?! Isso é um fedelho! Vai tomar conta de uma casa de jogo?!
Meu camarada disse:
-É, mas é esse mesmo que eu quero.
-Mas esse ‘mininu’ não pode tomar conta de uma casa de jogo!
Ele disse:
-É doutor, esse é ‘mininu’, mas é esse mesmo que eu quero.
Aí o doutor se conformou, num é, em dar a licença. Aí virou pra mim e disse:
-Como é seu nome?!
Eu disse:
-Vicente Ferreira Pastinha.
Suspendeu a carteira e tirou as carta toda, e disse:
-É você que é o ‘valentinozinho’ que eu tenho aqui no meu distrito, num conhecia você!
Só de carta de queixa, né…
Eu aí digo, cá comigo né, eu digo‘pronto, tou gun, tou preso é?’
*
Nos dias de birra, tinha um, a, um grupo de capoeirista. Só tinha Mestre! Os maiores Mestres daqui da Bahia! Todo domingo tinha ali uma capoeira que só ia alí Mestre! Num tinha nada de aluno, era Mestre! E esse ex-aluno meu, ‘Aberrê’, fazia conjunto lá. Então os Mestres lá procuraram saber, querer me conhecer! Perguntou ao Aberrê quem tinha sido o Mestre dele. Ele deu meu nome.
-Traga esse ‘homi’ aqui que ‘nóis’ precisamos conhecer ele! É tão falado, é tão bom capoeirista. Traga ele aqui pra gente conhecer.
O Aberrê me convidou pra eu assistir ele jogar, no dia de domingo. Quando eu cheguei lá procurou o dono do, da capoeira, que era o ‘Amorzinho’, era um guarda civil.
E o ‘Amorzinho’, o ‘Amorzinho’ no apertar da minha mão foi e me entregou a capoeira pra eu tomar conta…”
Cor
outubro 15, 2010
Traga aqui menina, depressa! Ande!
A menina pequena, de cabelos castanhos claros, saiu com passinhos apressados levando a bacia com água quente para a parteira que auxiliava em socorro o nascimento de sua primeira irmãzinha.
Sua mãe que dava luz naquele momento, a viu entrando no quarto e tentou sorrir-lhe dizendo que ocorria tudo bem. Mas ela estava muito espantada com tudo aquilo, com os gritos de sua mãe, com o sangue nos lençóis brancos, com a negra grande e bonita fazendo todo o trabalho necessário para que sua irmãzinha chegasse bem ao mundo dos homens carnais.
Sentiu alguém puxar-lhe a mão e a levar para outro canto da casa enquanto o trabalho continuava no quarto.
Depois de algum tempo sentada numa cadeira, olhando para o chão e balançando as perninhas, ouviu o choro do bebê: acabara de ganhar uma irmã para acompanhá-la pela terra viva dos homens.
***
Vinte anos depois, já mulher feita, encontrou com os olhos do amor, de seu amor, em uma rua de trânsito intenso onde ambos caminhavam a pé em sentidos opostos; daí o encontro. Olharam-se… Olharam-se… Ela já era uma restauradora, e ele um tipo de tradutor de inglês e espanhol. Ela lhe disse:
-Então era você? Todo esse tempo era você?
-Eu nem sabia o que buscava, mas buscava… Me perdi e me achei tantas vezes enquanto tomava banho com letras e mais letras de palavras bem escritas. Mas quer saber?
-O que?
(O menino do jornal gritava as principais manchetes daquele dia, na esquina próxima da Av. Paulista…)
-Eu mordi o sol e as nuvens; o mar trocou de lugar com o céu e eu apontei meu dedo indicador para o norte…
Ela era uma linda mulher, desde quando pequena com seus longos cabelos castanhos claros e pele levemente corada na face. Agora, ganhara ainda mais beleza e força com o tempo, e isso fazia-lhes próximos.
Como que gostando do que ouvira, ela sorriu, e seu coração ficou tão leve, e a cidade nem era mais tão grande…
-Eu vejo o norte, disse ela, e tua mão se insinuando sobre ele…
As almas dos dois tagarelavam alegremente enquanto eles se olhavam em um silêncio que nem todos aqueles carros da Av. Paulista conseguia quebrar.
E assim como sua irmãzinha que há tempos atrás surgiu no mundo, a cor acabava de nascer ali, naquele exato momento, bem no meio dos dois…
Acordando (Safra)
outubro 4, 2010
Acordando
Nos últimos dias agradeço à vida.
Que passos tenho eu dado? Quais caminhos estou eu seguindo? Nada de novo no front… Algumas belas mulheres no caminho, poucos cigarros nas horas certas, vinho (eram baratos tempos atrás, mas agora melhoraram sensivelmente) e, mais uma vez, eu novamente.
Admiro e respeito todos os seres humanos. Irmãos num mesmo barco. Companheiros. Nada do que reclamar, de fato. Ajudar sempre uns aos outros. Sim.
Bem que… penso…
(…)
Às vezes pegamos caronas na vida de outras pessoas Nada do que reclamar…
Talvez__
Falta algum tipo de fogo algumas vezes. Culpa minha, culpa sua, culpa nossa. É. Natureza sem medida. Pés cada vez mais fincados no chão,
e mãos cada vez mais erguidas aos céus.
Quem quiser me enganar, esteja à vontade. Talvez seja algo de que alguns precisem.
Mas não penses que não saberei quando isto acontecer; estou sempre alerta. O leiteiro já falou, então também falarei!
Apenas deixo, talvez por compaixão e respeito para com a vontade do outro.
Sim, o ódio…
É interessante este sentimento, algumas vezes muito produtivo. Um ódio construtivo, algumas vezes amor sob outra forma.
Trate bem as outras pessoas, ajude, mas não morra no processo.
Havana está logo ali, uma ilha: charutos, música e destinos. Havana está logo aqui: nesta cidade natal.
Basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Sempre em frente o rio segue. Sou um rio. Pacífico. Constante. Por vezes nos encontramos, por vezes não. O que se há de fazer?
Pegamos algumas caronas na vida de outras pessoas
Não canta, Robert Nesta Marley.
Na verdade se entrega às palavras que saem de sua boca numa comunhão com Deus. É preciso crer no que se canta para haver entrega. É agressivo por natureza. Sempre de olhos fechados profere suas canções.
Nunca o vi cantando de olhos abertos. Me toca. O sorriso é estampado. Não há como duvidar daquele sorriso aberto e lindo. Encantador.
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