V
Ele estava alimentando o lobo dentro de si. Quando essa época chega, de tempos em tempos na vida de um homem, veste-se couro nú, garras e dentes. É possível olhar para o céu da noite e escutar seus gritos
nem sequer gritados
ainda. Pedro andava buscando vitalidade e vazão para seu lobo interno. Encontrou: 10 dias de trilhas de mata a dentro com seu amigo de todas as texturas o fizeram encontrar. Foi no auge de seus 24 anos, e o lobo novamente chegou.
Nessas épocas, ele já nem sabia mais, fazia mesmo tempo, que não sentia o toque de uma mulher. Sobrevivia agora de carniças, e de seu peito sempre a pulsar forte mostrando-lhe os caminhos mais adequados.
A fogueira foi acesa por seu companheiro. Faziam coisas de comer, poucas, e um café “borrento”, mas saboroso. Era rodeado disso, das árvores altas e da noite, que Pedro tecia sem destino essas reflexões.
…continuando…
agosto 19, 2011
3 – 3 de Espadas ou Mirante da Boa Vista
Foi sem entender, como sem mesmo entender, acariciava os mistérios, curvas, sinuosidades, cheiros. Confusões sem nenhuma palavra sair pela boca deles. Pedro, a última moça citada, ela mesma… Foi sem saber, como uma ingenuidade de jaguatirica quando criança, adolescente.
Era mesmo o fogo, a coisa fogo que vinha do contato da terra, madeira, ar, magia, todas juntas e ao seu tempo que nascerá daquele encontro.
Queima fogo, queima.
Fogo queima até o tempo que dure seu fogo
pode ser logo,
pode ser eterno.
4-Saquarema na terra chega ou Espelhos
-Meu irmão, que serra linda!
(…)
-Bixu…
Já haviam trocado farpas de todos os tipo, alguns “desentendimentos” menores, afinal, eram irmãos-homens naquela idade no tempo: às vezes os lobos ou ursos acordavam dentro deles em busca de alimento fresco e selvagem da vida. Complementavam-se naquilo que se diz amizade, irmandade, mas algumas vezes se olhavam em cruzamento, nada de maldade, mas sim, se pudermos dizer, possíveis pitadas de xãmanismo, bruxaria, lealdade e índios das planícies do Alaska. Era a natureza selvagem lhes incitando…
Eram amigos em companherismo. Isso mais importava.
IV
1-Espelho (ou “Espejo”)
-Uma pequena história:
“Lao-Tsé, um grande Mestre da Sabedoria Humana e Alquimia que viveu no séc. VII a.C. gostava de passear horas e horas pelos bosques e paisagens que ficavam nas proximidades de sua humilde e aconchegante casa. Lao-Tsé meditava muito durante estes momentos, e também transcrevia suas reflexões para o papel: mais tarde, com passar do tempo que solidifica as montanhas, esses escritos viriam a ser muito importantes, reunidos sob o nome de “Tao Te Ching”, ou “O Livro do Caminho e da sua Virtude” (caminho do Tao).
Lao-Tsé gostava de receber em sua casa pessoas, andarilhos, peregrinos. Alguns passavam mais tempo e se tornavam seus discípulos; outros apenas por pouco tempo, dias ou semanas. Naquela época o Mestre vivia apenas com um único discípulo, e este o acompanhava sempre nas suas caminhadas. Geralmente ele ia atrás e seu Mestre um pouco mais a frente. Nunca houve uma troca de palavras entre os dois em anos de caminhada.
Certo dia, o discípulo contou a seu Mestre que um parente distante estava por chegar, e perguntou se esse parente não poderia se hospedar na casa do Mestre por um período, no que Lao-Tsé consentiu de imediato.
Assim é que os três começaram a caminhar juntos, Lao-Tsé indo sempre um pouco mais a frente. O discípulo havia alertado seu parente sobre o fato de que seu Mestre apreciava muito o silêncio, e as coisas mais belas da Natureza, e que não tolerava qualquer tipo de conversas em suas caminhadas. E por uma sucessão de meses nenhum tipo de palavra foi proferida pelos três durante esses momentos.
Num dia, os três indo a cumprir esse mesmo ritual, o visitante viu uma bela flor. Ela era tão linda e exalava um perfume tão suave e penetrante, que ele não conseguiu conter sua emoção e exclamou, em poucas palavras:
-Que bela flor!
Lao-Tsé, tomando por uma surpresa imensa, olhou para trás com ares coléricos e falou para seu discípulo:
-Seu parente fala de mais! Ele é um tagarela! Faça-o ficar em silêncio, por favor!”
2-Espejo (ou “Espelho”)
-”Um por todos e todos por um!”
Alexandre Dumas vertia palavras de aventura em algumas verdades humanas. Foi numa praia deserta que Pedro proferiu em voz alta essas mesmas palavras para seu “compañero” de mares diversos. Começava a entender coisas sobre a amizade. O silêncio também
também,
era muito bem vindo entre eles, parceiros em parceria.


